O Brasil opera sob uma taxa de juro real de 9,67%, reflexo direto do descompasso entre a expansão dos gastos públicos e a disciplina orçamentária. Durante a Expert XP na quinta-feira (23) em São Paulo, Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da Quantitas Asset, classificou a postura atual da administração federal como um "all in" fiscal. A estratégia pressiona a curva de juros, encarece o crédito e gera tensão no mercado com a aproximação do pleito de outubro.

A Expansão de Gastos e o Novo Arcabouço Fiscal

A dinâmica orçamentária prioriza a injeção de recursos na economia sem sinais de contenção. Mesmo com o novo arcabouço fiscal em vigor — regra criada para limitar despesas e estabilizar a trajetória da dívida —, os gastos ampliam-se em ritmo considerado insustentável. Quando o lado fiscal não garante metas mínimas de superavit, o ajuste recai sobre a política monetária, obrigando o Banco Central a elevar e manter os juros em níveis restritivos.

“Quando o fiscal não é ajustado ou, pelo menos minimamente, assegurado, o risco para o monetário, que tem que fazer o trabalho”, afirmou Chermont.

Projeções de Juros e o Cenário de Referência

O juro real — retorno do investimento descontada a inflação — sustenta as projeções conservadoras para a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, taxa básica de juros). A Quantitas Asset trabalha com dois patamares para o fechamento do ano, dependendo dos indicadores de preços e atividade.

IndicadorValor Projetado / AtualCondicionante
Taxa de Juro Real9,67%Dívida pública e ritmo de gastos
Selic (Projeção Base)14,00%Cenário-base da gestora
Selic (Cenário Alternativo)13,75%Evolução do IPCA e PIB

A margem entre os percentuais revela a sensibilidade do Copom aos dados de curto prazo. Surpresas na inflação de serviços consolidariam o patamar de 14,00% como referência imediata.

O Limite da Restrição Monetária e o Fator Externo

Sobre o limite da alta, Chermont evoca comparações com o segundo mandato de Dilma Rousseff, marcado por descoordenação macroeconômica. A diferença reside na persistência: o Brasil mantém juros reais elevados por três anos, condição historicamente desgastante. A atual estabilidade de fluxos deve-se ao ambiente global. O câmbio e os capitais estrangeiros respondem ao prêmio de risco — remuneração extra por operar em mercados emergentes — e ao diferencial de juros com os EUA. Se o Federal Reserve (Fed) elevar os juros americanos, reduzindo essa diferença, o capital migraria, forçando um aperto monetário doméstico mais severo.

Eleições de Outubro e a Perda do Benefício da Dúvida

O pleito de outubro redefine a precificação. Em 2022, o mercado operou sob a expectativa de um Executivo mais pragmático. Para o ciclo atual, essa tolerância desapareceu. Agentes exigirão ajustes tangíveis nas contas públicas para derrubar o prêmio de risco. Uma candidatura oposicionista com viés liberal poderia capturar confiança inicial, pressionando a curva de juros para baixo e valorizando o real. Sem clareza sobre a condução da política econômica, estimativas para 2027 perdem fundamentação.

O que isso significa para o investidor

O cenário exige gestão ativa de liquidez e recalibragem de carteira. A combinação de juro real acima de 9,67% e Selic nos dois dígitos eleva a atratividade de renda fixa pós-fixada atrelada ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário) ou Tesouro Selic. A volatilidade política de outubro e a sensibilidade ao Fed nos EUA indicam que a renda variável local enfrentará ventos contrários até a definição da agenda fiscal. Estratégias de diversificação e manutenção de prazos curtos tornam-se mecanismos de defesa contra oscilações cambiais e de juros. A alocação deve priorizar preservação de capital e flexibilidade.

Riscos em Evidência

  • Risco Fiscal: Expansão contínua de despesas sem metas de superavit, pressionando a dívida pública.
  • Choque Externo: Alta de juros pelo Fed, reduzindo o diferencial atrativo do Brasil e provocando saída de capitais.
  • Incerteza Eleitoral: Definição tardia da agenda econômica capaz de elevar abruptamente o prêmio de risco.
  • Restrição ao Crédito: Juros prolongados encarecem o financiamento corporativo e familiar, freando a atividade.

Perspectiva e Próximos Passos

O monitoramento concentrar-se-á nos indicadores de inflação, na arrecadação e nas diretrizes do Copom. A definição das plataformas eleitorais servirá como catalisador para a precificação dos ativos até 2027. Até a dissipação da neblina política após outubro, a estratégia predominante entre gestores será a cautela, priorizando caixa e exposição reduzida a riscos não compensados.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.