O hacker que invadiu o Mercado Bitcoin (MB) na segunda-feira (2) ainda mantém menos de 3% do total de ativos sob custódia da corretora, segundo Fabrício Tota, VP de Novos Negócios da empresa. No mesmo vídeo divulgado no dia 5, ele detalhou a forma de compensação dos usuários e a agenda para reabrir a plataforma.
Rastreamento e bloqueio dos recursos
ATÉ AGORA, a exchange (plataforma de negociação de criptoativos) conseguiu bloquear US$ 16 milhões dos valores desviados. Esse trabalho contou com o apoio de Chainalysis, Paxos, Circle, Stellar e Tether, além de emissores de criptomoedas. Segundo Tota, investigadores independentes que seguem o trajeto dos fundos pela blockchain (o registro público e encadeado de todas as transações) avaliam que o MB congelou uma fatia muito superior à média observada em incidentes desse tipo. Para o executivo, esse desempenho situa o caso entre os episódios com maior taxa de recuperação já registrados no setor.
Por que o prejuízo ficou restrito
A diferença entre o montante atingido e o patrimônio total decorre da arquitetura de armazenamento. Os recursos subtraídos estavam em hot wallets (carteiras digitais conectadas à internet, usadas nos saques e depósitos do cotidiano). A parcela majoritária, por outro lado, fica em cold wallets (carteiras offline, sem nenhuma conexão com a rede), que não foram afetadas.
Na avaliação do executivo, o parâmetro adotado pelo setor é algo em torno de 5% do acervo em hot wallets. O contraste aparece na Coreia do Sul, onde a regra vigente autoriza até 20% do acervo nesse formato. Nesta semana, o regulador sul-coreano convocou as maiores corretoras do país para avaliar um corte que aproxime o limite de 1%.
Indicadores do caso
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Parcela dos ativos sob custódia ainda com o invasor | menos de 3% |
| Valor já bloqueado com apoio de parceiros | US$ 16 milhões |
| Captação ao longo de 13 anos | cerca de US$ 300 milhões |
| Aporte da Tether recebido em julho | US$ 20 milhões |
| Proporção de ativos em hot wallets indicada pelo setor | cerca de 5% |
| Teto atual de hot wallets na Coreia do Sul | 20% |
Como a corretora pretende recompor o saldo desviado
A companhia assegura que os saldos de todos os clientes seguem preservados e que a quantia desviada será coberta pela própria empresa. Segundo Tota, a recomposição já está em curso, a mesa de operações recompra ativos com parceiros aqui e no exterior.
Para respaldar a promessa, o MB recorre à própria estrutura de capital. Nos últimos 13 anos, a companhia levantou aproximadamente US$ 300 milhões. Entre os aportadores aparecem GP Investimentos, Parallax Ventures, Tribe Capital, 10T Holdings, SoftBank e o Meli Fund, ligado ao Mercado Livre. Em julho, somou ainda US$ 20 milhões vindos da Tether, empresa que emite stablecoins em escala global (criptoativos atrelados a moedas como o dólar).
Calendário de retomada
Na segunda-feira (9), a consulta de saldos, extratos e posições volta ao ar pelo site, tomando como referência o retrato anterior ao incidente. Depois disso, a reabertura de negociações, saques e depósitos, em criptoativos e em reais, ocorrerá de maneira gradual, grupo por grupo de ativos e rede.
Um cronograma pormenorizado ainda deve ser divulgado. Os produtos de Renda Fixa Digital, informa a corretora, ficaram fora do alcance do ataque.
O que observar como cliente
Dois fatores pesam na leitura do caso. O primeiro é a arquitetura de custódia: quanto menos ativos ficam expostos a invasões, menor a área vulnerável, e é isso que explica a dimensão contida do episódio. O segundo é o ritmo de liberação, já que a retomada escalonada faz com que o acesso integral aos recursos dependa do calendário detalhado, que ainda não foi publicado.
Na prática, quem tem saldo na corretora deve acompanhar apenas os canais oficiais. O MB não entra em contato para oferecer reembolsos por WhatsApp, ligação ou link, e não pede senhas, códigos nem frases de recuperação. Os avisos oficiais aparecem exclusivamente nos canais próprios, aplicativo, página na internet e redes sociais da empresa, incluindo Instagram e X. Ainda não há detalhes sobre como o ataque foi executado nem sobre quem está por trás dele, já que a apuração oficial mantém o assunto em sigilo.
