Principais pontos
- O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira, 3, em entrevista à TV Record, que o varejo brasileiro não atravessa uma crise generalizada — mas reconheceu, no mesmo fôlego, que as taxas de juros pressionam o consumo.
- Quando a taxa de juros é mais alta, isso inibe essa compra e reduz o consumo
- A leitura para quem acompanha o setor é direta: enquanto o custo do crédito seguir elevado, as margens já enxutas do varejo tendem a permanecer sob pressão.
Durigan descarta crise generalizada, mas admite pressão dos juros sobre o consumo
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira, 3, em entrevista à TV Record, que o varejo brasileiro não atravessa uma crise generalizada — mas reconheceu, no mesmo fôlego, que as taxas de juros pressionam o consumo. Para o ministro, quem vê uma loja fechando seguirá tendo alternativas de compra, seja em concorrentes, seja nos canais digitais.
A leitura para quem acompanha o setor é direta: enquanto o custo do crédito seguir elevado, as margens já enxutas do varejo tendem a permanecer sob pressão. Não é o governo negando o problema — é o próprio governo descrevendo, em três canais distintos, de onde vem a dificuldade de parte das empresas do ramo.
"Não estou dizendo que a taxa de juros não atrapalha. As empresas de varejo, em especial, têm uma margem de lucro pequena, e dependem muito de crédito para sobreviver", disse Durigan, segundo a entrevista concedida à emissora.
Os três vetores de pressão que o próprio governo reconheceu
Questionado sobre o fechamento ou o pedido de recuperação judicial de grandes varejistas, o ministro atribuiu as dificuldades a transformações do próprio mercado, e não a uma crise específica da economia brasileira, que, em suas palavras, "vai bem". Os pontos por ele citados podem ser organizados assim:
| Vetor reconhecido pelo ministro | O que mudou, segundo Durigan |
|---|---|
| Crédito | Os cartões usados hoje pelos consumidores não são mais os de grandes varejistas, como ocorria no passado |
| Hábitos de consumo | A pandemia alterou o padrão de consumo da população, afetando essas empresas |
| Custo do dinheiro | Juros elevados inibem compras parceladas, como móveis, e reduzem o consumo |
"As pessoas, quando compram o seu sofá ou seu móvel, usam crédito para não ter que desembolsar tudo de uma vez. E, quando a taxa de juros é mais alta, isso inibe essa compra e reduz o consumo", completou o ministro.
Por que o diagnóstico importa para o investidor do setor
O varejo é, historicamente, um dos segmentos mais sensíveis ao custo do crédito ao consumo, justamente pela combinação apontada por Durigan: margem de lucro pequena e dependência de financiamento tanto da operação da empresa quanto da decisão de compra do cliente final. Quando o dinheiro fica caro, o efeito costuma ser duplo — encarece o giro do varejista e reprime a demanda parcelada, canal típico de vendas de itens de maior valor, como móveis e eletrodomésticos.
O ministro também tocou em outro frente relevante para o setor: a chamada "taxa das blusinhas", tema recorrente no debate nacional sobre a tributação de compras internacionais em canais digitais. Segundo Durigan, há um apelo grande para que a cobrança não avance, em razão da demanda dos consumidores por canais digitais — e, se o tema não fosse relevante, não ocuparia espaço tão amplo na discussão pública.
"Foram vários movimentos que justificam a dificuldade de algumas empresas. Então, a gente não tem que entrar num Fla-Flu, porque não há crise específica na economia brasileira, que vai bem. Nós temos dificuldades e desafios que nós precisamos reconhecer", disse o ministro.
O que observar a partir daqui
O discurso oficial nega colapso, mas a própria fala do ministro indica por onde o investidor pode acompanhar o setor: a trajetória do custo do crédito, a recuperação — ou não — da demanda parcelada e o desfecho do debate regulatório sobre as compras digitais internacionais. Enquanto o crédito ao consumo seguir caro, o histórico do mercado sugere que varejistas dependentes de financiamento tendem a sentir o efeito antes de outros setores; uma eventual trajetória de alívio nos juros, por outro lado, historicamente costuma devolver fôlego à renda das famílias e ao consumo a prazo. Nenhuma dessas leituras constitui sinalização de compra ou venda — são vetores de monitoramento extraídos do próprio diagnóstico do governo.
