A reação do mercado ao primeiro turno das eleições foi intensa e imediata: o Ibovespa subiu 7%, o dólar caiu 4% e a curva de juros longos recuou 100 pontos-base. Foi nesse ambiente que a Privatto Multi Family Office, gestora dedicada à administração de grandes patrimônios, apresentou quatro apostas para o segundo turno — com uma ressalva que merece atenção: a fatia tática sugerida ocupa de 3% a 7% da carteira, conforme o perfil do investidor.

BOVA11, BBAS3, CYRE3 e SBSP3: quatro teses em uma lista curta

A seleção reúne um ETF de exposição ampla e três ações setoriais. O BOVA11, que acompanha o Ibovespa, surge como a via mais diversificada para uma eventual continuidade da valorização da Bolsa. Entre os bancos, a preferência recai sobre o Banco do Brasil (BBAS3); na construção civil, sobre a Cyrela (CYRE3); e, no saneamento, sobre a Sabesp (SBSP3).

A estratégia se apoia em ativos mais sensíveis a juros, crédito e prêmio de risco. A repartição por perfil do investidor é o dado que dá o tom:

Perfil do investidorExposição tática sugerida
Conservador3%
Moderado5%
Agressivo7%

O BOVA11 responde pela maior parcela dessa composição. Os percentuais indicam que, mesmo diante de um pregão excepcionalmente positivo, a gestora trata a aposta eleitoral como um complemento da carteira, e não como o seu eixo principal. Uma fatia de 3% a 7%, por construção, limita tanto o ganho quanto a perda atrelados a esse tipo de movimento — o que reduz o efeito da euforia sobre o resultado final do portfólio.

Há uma distinção relevante entre exposição tática e posição estrutural. A primeira é desenhada para capturar um movimento de prazo curto, associado ao calendário eleitoral; a segunda reflete a visão de longo prazo do investidor. Ao reservar poucos pontos percentuais para a tese eleitoral, a gestora separa os dois planos e evita que uma leitura de conjuntura redesenhe toda a alocação.

Juros, crédito e o prêmio de risco: o fio que une as escolhas

As quatro teses seguem um mesmo fio condutor. No caso dos bancos, a avaliação é de que o fechamento da curva de juros, a melhora das condições de crédito e uma percepção menos adversa sobre o risco do país tendem a favorecer o setor. A construção civil aparece como o segmento de maior sensibilidade às taxas futuras: juros menores historicamente costumam baratear o financiamento imobiliário, reduzir o custo de capital das companhias e impulsionar lançamentos e vendas.

A Sabesp é tratada de forma distinta. A tese da gestora é menos dependente do resultado eleitoral e mais ligada a fatores operacionais, como eficiência, governança, investimentos e redução do custo de capital. É um perfil que se apoia em fundamentos da própria companhia, e não no humor político das próximas semanas.

O conjunto dos quatro ativos tem uma característica comum: todos tendem a responder de forma acentuada a mudanças na curva de juros e na avaliação de risco do país. Isso explica por que a gestora os agrupa, mesmo atuando em segmentos tão diferentes como bancos, construção e saneamento.

A montagem veio depois de um primeiro turno que surpreendeu. Flávio Bolsonaro (PL) terminou como vencedor, algo que as pesquisas não haviam captado, e a direita ampliou sua representação no Senado e na Câmara, no melhor desempenho desde 1989, ano da redemocratização.

A cautela que acompanha a euforia do pregão

Eduardo Tellechea Cairoli, fundador e CEO da Privatto Multi Family Office, afirma que “Ao longo do processo eleitoral, temos observado mudanças nas expectativas de juros, risco fiscal, crédito e fluxo de capital, que ganharam força ao final do primeiro turno. São movimentos que produzem efeitos sobre diferentes setores da Bolsa”

A orientação da casa é explícita quanto ao risco de concentração: a estratégia eleitoral deve ocupar espaço limitado na carteira. A gestora também evita ancorar decisões apenas no resultado da votação, preferindo preparar as posições para cenários distintos de mercado — abordagem que ganha relevância quando o desfecho segue em aberto.

O que observar até 25 de outubro

O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e as próximas três semanas tendem a concentrar novas sinalizações políticas e econômicas com potencial de influenciar juros, câmbio e Bolsa. Para quem tem exposição a ações brasileiras, o período combina duas forças opostas: de um lado, a expectativa de maior previsibilidade fiscal e de queda do prêmio de risco, que sustenta a reprecificação dos ativos; de outro, a volatilidade natural de um calendário eleitoral que ainda não terminou.

A reprecificação, no entanto, depende de fatores que vão além das urnas. A trajetória dos juros futuros, a evolução do crédito e o fluxo de capital estrangeiro seguem determinando quais setores sentem mais o movimento. Historicamente, ativos mais alavancados a juros e crédito — como bancos e construção — costumam reagir primeiro, enquanto teses ligadas a fundamentos próprios tendem a seguir ritmo próprio.

A carteira montada pela gestora trata o cenário eleitoral como um fator entre vários, e não como o motor principal de uma estratégia de longo prazo. É esse dimensionamento que define o peso real da aposta, independentemente da direção que o mercado tomar até a votação.