Sem as medidas do governo para limitar o impacto da alta do petróleo provocada pela guerra no Irã, iniciada no fim de fevereiro, os combustíveis poderiam custar cerca do dobro do valor cobrado hoje nas bombas, na avaliação de representantes do setor ouvidos pela imprensa. O número mais expressivo vem da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom): no diesel, a Petrobras vende na refinaria a R$ 3,57 por litro, enquanto o preço no mercado internacional é de R$ 7,497, o que coloca a estatal em 47% do valor externo.

Essa distância explica por que o tema ganhou peso: a estrutura montada para conter preços no curto prazo reduz a competitividade de importadores e de refinarias privadas, enquanto a Petrobras absorve parte da alta e o governo sustenta parte do desconto com receitas extraordinárias. Para quem acompanha a PETR4, a questão central é por quanto tempo esse arranjo se sustenta.

Diesel e gasolina: preço na refinaria bem abaixo da referência externa

Os dados da Abicom mostram a distância nos dois combustíveis:

CombustívelPreço da Petrobras na refinariaPreço no mercado internacional
DieselR$ 3,57 por litroR$ 7,497
GasolinaR$ 3,80 por litroR$ 7,00

No diesel, a Petrobras vende por 47% do preço internacional, de acordo com a associação. Os valores da gasolina são aproximados, mas a diferença segue na mesma direção. Essa distorção é o outro lado do alívio nas bombas, as medidas seguraram a inflação no curto prazo, mas também produziram um desalinhamento relevante de preços.

Petrobras opera perto de 98% e segura reajustes nas refinarias

Na tentativa de suavizar o impacto do cenário externo, a Petrobras acelerou o refino em suas plantas e trabalha com utilização perto de 98% da capacidade instalada. Com isso, a estatal amplia a produção de derivados e reduz a necessidade de importação. Ao mesmo tempo, a companhia evitou movimentos bruscos nos preços do petróleo e dos derivados repassados às refinarias nacionais, combinando essa política com subsídios articulados pelo governo.

Tributos zerados e subvenções somam R$ 3,52 no diesel

Pelo lado tributário, o governo zerou as contribuições federais PIS/Cofins e a Cide, contribuição federal incidente sobre combustíveis, no caso da gasolina, e estendeu ou ampliou desonerações sobre o etanol. Desoneração significa redução ou isenção de impostos. Também foram concedidas subvenções diretas, ou seja, repasses públicos a produtores e importadores de diesel e etanol, com a exigência de que todo o desconto chegue ao consumidor final. Esses recursos vêm em parte de receitas extraordinárias e da cobrança sobre a exportação de petróleo.

No diesel, há duas subvenções empilhadas: uma de R$ 1,40, com vencimento em 12 de novembro, e outra de R$ 2,12, que vence mais perto do fim do mês. Somadas, elas totalizam R$ 3,52, conforme o presidente da Abicom, Sérgio Araújo.

Importadores perdem viabilidade; custo do modelo pode surgir depois

Evaristo Pinheiro, que preside a Refina Brasil, entidade das refinarias privadas, diz que a diferença entre o preço doméstico e o internacional inviabiliza economicamente a importação. Ele reconhece o efeito de contenção inflacionária no curto prazo, mas acredita que a conta tende a surgir mais adiante. Segundo Pinheiro, nenhum outro país adotou o modelo brasileiro, em outros mercados, os governos preferiram medidas focalizadas, com subsídios voltados a motoristas de aplicativos e a empresas de ônibus.

Vencimentos em novembro e redução gradual após a eleição

Na avaliação de Sérgio Araújo, presidente da Abicom, o arranjo acabou funcionando, na prática, como um apoio à Petrobras. Ele prevê que, passado o período eleitoral, o governo comece a reduzir gradualmente o valor das subvenções, já que surgem dificuldades de caixa.

Para o investidor, o cenário combina três pontos. Primeiro, a distância entre o preço da refinaria e o valor externo depende de medidas com prazo definido, como as subvenções que vencem em novembro. Segundo, uma redução gradual desse apoio tende a devolver parte do custo ao preço final, o que pode pressionar a inflação de combustíveis. Terceiro, a PETR4 fica exposta ao equilíbrio entre a política de preços da companhia e as pressões de caixa apontadas pelo dirigente da Abicom.