Principais pontos
- O lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026 representa alta de 14% sobre os três meses anteriores e avanço de 3% na base anual.
- Os índices de inadimplência acima de 90 dias no segmento de pessoas físicas saltaram para 8,4%, ante 6,8% no trimestre anterior, enquanto o índice de cobertura caiu para 125,8%.
- O índice de capital principal (CET1) recuou para 11,27%, movimentação influenciada por ajustes atuariais ligados à Previ e pelo crescimento dos ativos fiscais diferidos.
O Banco do Brasil (BBAS3) entregou um resultado que, à primeira vista, celebraria qualquer acionista: lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026. O lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026 representa alta de 14% sobre os três meses anteriores e avanço de 3% na base anual. O montante superou as estimativas do consenso de mercado, beneficiado por despesas menores com provisões jurídicas, controle de custos e receitas extraordinárias. Contudo, a reação das mesas foi impiedosa. Os papéis da estatal, que operavam próximos à estabilidade no pregão matutino, inverteram a rota e registravam desvalorização de 3% em torno das 12h desta quinta-feira (13), negociados a R$ 18,43. O que justifica essa punição a um balanço tão robusto nos números finais? A resposta reside na desconexão entre o lucro contábil e a qualidade subjacente dos ativos, revelando um cenário onde o resultado foi sustentado por itens pontuais, enquanto a deterioração do crédito e o aperto de capital exigem atenção redobrada.
O lucro de baixa qualidade e o alívio de curto prazo
Para as principais casas analíticas, o ambiente exige cautela. XP, Itaú BBA, Bradesco BBI, Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan avaliam que a qualidade do resultado é questionável e os riscos para o segundo semestre seguem elevados. A XP classificou o trimestre como claramente melhor do que o esperado, destacando que o lucro veio 15% acima de sua projeção, impulsionado por um custo de risco menor que o previsto e por despesas operacionais sob controle. O Bradesco BBI apontou que o resultado foi sustentado por itens não recorrentes, como maiores receitas de equivalência patrimonial e menores despesas legais. Para o Goldman Sachs, o lucro serviu como um alívio após as fortes preocupações do mercado, mas não eliminou os sinais de alerta. O banco ressaltou que o ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido, que mede a rentabilidade gerada sobre o capital dos acionistas) de 8,3% continua significativamente abaixo do custo de capital e que as provisões seguem em patamar elevado. O Itaú BBA classificou o desempenho como um "beat de baixa qualidade", com a surpresa positiva no lucro sendo consequência de provisões inferiores à formação de novos créditos problemáticos e de um efeito tributário favorável, enquanto as tendências operacionais permaneceram frágeis. Essa leitura indica que o banco está utilizando o colchão de provisões para suavizar o impacto da deterioração real do crédito no resultado final, uma prática que naturalmente levanta questionamentos sobre a sustentabilidade da margem líquida nos próximos trimestres.
A deterioração silenciosa da carteira de pessoas físicas
O principal tema do trimestre foi a deterioração da carteira de pessoas físicas. Os índices de inadimplência acima de 90 dias nesse segmento saltaram para 8,4%, ante 6,8% no trimestre anterior, enquanto o índice de cobertura caiu para 125,8%. Os índices de inadimplência acima de 90 dias no segmento de pessoas físicas saltaram para 8,4%, ante 6,8% no trimestre anterior, enquanto o índice de cobertura caiu para 125,8%. O índice de inadimplência acima de 90 dias total atingiu 5,61%, de 3,96% um ano antes e 5,05% nos primeiros três meses de 2026. Os cartões de crédito foram o principal foco de preocupação. A XP aponta que os atrasos acima de 90 dias mais que dobraram, atingindo 14,6%, e responderam por praticamente toda a deterioração observada no trimestre. Os analistas destacaram que o crescimento da carteira de cartões tem sido impulsionado mais pelo financiamento do saldo do que pelo aumento do consumo, resultando em um perfil de risco mais elevado. O Itaú BBA observou que a formação de novos créditos inadimplentes em pessoas físicas mais que dobrou na comparação trimestral, chegando a R$ 11,8 bilhões. Para o banco, os financiamentos em cartões e crédito consignado privado originados ao longo dos últimos trimestres ainda não maturaram totalmente, o que mantém riscos adicionais à frente, sugerindo que o pico de formações ainda pode não ter sido alcançado. Morgan Stanley e Bradesco BBI também ressaltaram a piora dos indicadores antecedentes, observando que os atrasos acima de 30 dias continuaram aumentando.
| Indicador de Crédito | 1T26 / Ano Anterior | 2T26 |
|---|---|---|
| Inadimplência >90d (P. Física) | 6,8% | 8,4% |
| Inadimplência >90d (Total) | 3,96% (anual) / 5,05% (tri) | 5,61% |
| Inadimplência >90d (Cartões) | ~7% | 14,6% |
| Cobertura (P. Física) | 147,9% | 125,8% |
O agro entre a proteção recorde e as prorrogações bilionárias
Se o foco da deterioração migrou para pessoas físicas, a carteira agropecuária continua sendo um dos principais temas da tese de investimento. A XP destacou avanços importantes na cobertura de provisões, com a cobertura das operações problemáticas do agronegócio chegando a 99,3% dos saldos combinados de estágio 2 e 3 (classificações de risco para operações com aumento significativo de risco ou evidência de atraso). Por outro lado, os indicadores antecedentes seguem pressionados. O banco destacou que os atrasos iniciais avançaram para 9% e que há R$ 66,5 bilhões em operações rurais com prorrogação legal de prazo, além de R$ 39,3 bilhões enquadrados no programa BB Regulariza Agro. O Itaú BBA também chamou atenção para a alta da inadimplência de curto prazo e para a redução da cobertura por seguro rural em novas operações. Somado a isso, o que mais pesou no balanço foi a já esperada baixa contábil (impairment) de US$ 110 milhões da Resia.
A resiliência das tarifas e o custo do capital
Enquanto a qualidade do crédito piora, a geração de receitas continua sendo um dos principais fatores de sustentação do resultado. A margem financeira (NII, ou Net Interest Income) somou R$ 27,5 bilhões e permaneceu estável frente ao trimestre anterior. O destaque foi a margem com clientes, que cresceu 2,2%, enquanto a dependência dos resultados de tesouraria diminuiu. As receitas de prestação de serviços atingiram R$ 9,1 bilhões, com crescimento puxado por gestão de recursos, serviços bancários e consórcios. Outro destaque positivo foi o controle de despesas administrativas, que cresceram abaixo da inflação. Os acionistas ainda receberão R$ 584,9 milhões em JCP (Juros sobre Capital Próprio, mecanismo de remuneração com dedutibilidade fiscal) complementar do segundo trimestre.
O labirinto de capital e o desafio do guidance
Se a inadimplência é a principal preocupação operacional, o capital regulatório emerge como um dos grandes debates. O índice de capital principal (CET1) recuou para 11,27%, movimentação influenciada por ajustes atuariais ligados à Previ e pelo crescimento dos ativos fiscais diferidos. O índice de capital principal (CET1) recuou para 11,27%, movimentação influenciada por ajustes atuariais ligados à Previ e pelo crescimento dos ativos fiscais diferidos. O Goldman Sachs chamou atenção para o fato de que os DTAs (Deferred Tax Assets, ou Ativos Fiscais Diferidos, créditos tributários futuros) líquidos já representam cerca de 46% do patrimônio líquido. O JPMorgan destacou que os DTAs líquidos chegaram a aproximadamente R$ 87 bilhões, ou cerca de 48% do patrimônio. O JPMorgan avaliou negativamente o fato de que, apesar do lucro de R$ 3,9 bilhões no trimestre, o patrimônio líquido tenha encolhido mais de R$ 5 bilhões devido aos impactos atuariais registrados em outros resultados abrangentes. Essa dinâmica evidencia como a estrutura de benefícios de pensão e a composição do ativo fiscal podem corroer a base de capital tangível da instituição. O Banco do Brasil manteve suas projeções para 2026, mas o cumprimento das metas ficou mais difícil. Os R$ 7,3 bilhões de lucro acumulados no primeiro semestre implicam a necessidade de gerar entre R$ 10,7 bilhões e R$ 14,7 bilhões na segunda metade do ano para alcançar o guidance anual de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões. A percepção predominante é que, embora o resultado tenha sido melhor do que o mercado temia, ainda não há evidências claras de estabilização dos indicadores de risco.
