A Petrobras (PETR4) reportou produção própria de 3,512 milhões de barris de óleo equivalente por dia entre julho e setembro de 2026, o maior volume de sua série histórica, segundo o relatório operacional divulgado nesta quarta-feira (28). O patamar representa 5,3% de avanço sobre o 2T26 e 11,7% sobre o mesmo intervalo de 2025, deixando para trás o pico anterior de 3,336 milhões de boe/d — unidade que agrega petróleo, líquidos de gás natural e gás natural em um único número.

O detalhe que separa o trimestre da leitura simplista de euforia está na ponta comercial. As exportações de petróleo e derivados atingiram 1,251 milhão de barris por dia, novo recorde, mas o saldo líquido de vendas externas recuou 14,6% na comparação trimestral, para 918 mil barris diários, porque as importações deram um salto de 114,1%. Produção recorde, portanto, não se converte automaticamente em mais divisas entrando pela balança comercial — o que realmente pesa para quem acompanha a estatal é a combinação entre volume extraído, preço realizado e custo da compra externa.

Pré-sal entrega 2,454 milhões de barris por dia

Restringindo o recorte a óleo e LGN produzidos em território nacional, a companhia chegou a 2,832 milhões de barris diários, com crescimento de 5,3% sobre o 2T26 e de 12,4% na base anual. A camada pré-sal respondeu pela maior fatia: 2,454 milhões de barris por dia, 6,7% acima do trimestre anterior e 15,9% acima de igual período de 2025.

A estatal atribuiu o desempenho a três frentes que operaram juntas. A primeira é eficiência operacional, que marcou o melhor patamar desde o quarto trimestre de 2018. A segunda vem do ramp-up — a entrada gradual em operação plena — das plataformas P-78 e P-79, em Búzios, e do FPSO Alexandre de Gusmão, em Mero. A terceira é a redução de perdas com paradas para manutenção.

Os picos individuais ajudam a dimensionar esse avanço. Em Mero, o Alexandre de Gusmão superou a capacidade originalmente desenhada em projeto, de 180 mil barris diários, e alcançou 190 mil barris por dia. O FPSO Sepetiba marcou 212 mil barris diários em setembro. Já o Almirante Tamandaré, em Búzios, registrou em julho média mensal de 263 mil barris por dia, a maior já anotada. As unidades de Búzios ainda ultrapassaram, pela primeira vez, a marca de 11 milhões de metros cúbicos diários de exportação de gás natural.

Somando a parcela dos parceiros nos campos, a produção total operada ficou em 5,082 milhões de boe/d, também recorde, com alta de 4,4% frente ao trimestre anterior.

Refino roda a 99% da capacidade e diesel bate recorde

No segmento de refino, as vendas de derivados no mercado interno somaram 1,854 milhão de barris por dia, 6,4% acima do 2T26. Diesel e querosene de aviação (QAV) lideraram os ganhos, com 14,4% e 9,9% de alta, respectivamente. A demanda por diesel contou com o plantio da safra de verão e com a atividade industrial mais aquecida; o QAV foi beneficiado pelas férias escolares de julho e por uma base de comparação fraca, já que no segundo trimestre as aéreas haviam intensificado a otimização de frotas diante dos preços internacionais elevados do combustível.

A produção de derivados, por outro lado, caiu 2,3% para 1,873 milhão de barris por dia, afetada em parte por paradas programadas na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC). Ainda assim, o diesel alcançou recorde trimestral de 769 mil barris diários. As refinarias operaram com fator de utilização de 99%, e 68% do volume produzido foi composto por combustíveis de maior valor agregado, como diesel, QAV e gasolina.

Indicador (3T26)VolumeVariação
Produção própria total3,512 mi boe/d+5,3% vs 2T26 · +11,7% a/a
Óleo e LGN no Brasil2,832 mi b/d+5,3% · +12,4%
Pré-sal2,454 mi b/d+6,7% · +15,9%
Produção total operada5,082 mi boe/d+4,4% vs 2T26
Vendas de derivados no país1,854 mi b/d+6,4% vs 2T26
Exportações de óleo e derivados1,251 mi b/d+1,7% · +20,7%
Saldo líquido de exportações918 mil b/d-14,6% vs 2T26

A compra externa que explica o saldo menor

A abertura das exportações mostra 987 mil barris diários de petróleo e 198 mil barris diários de óleo combustível, dentro de um total recorde de 1,251 milhão de barris por dia — 1,7% acima do 2T26 e 20,7% acima do 3T25. O problema está do outro lado do balcão: com as refinarias praticamente no limite de utilização, sobra pouca folga para absorver demanda interna adicional sem recorrer a cargas importadas.

O salto de 114,1% nas importações reflete justamente a maior necessidade de compra de petróleo e a sazonalidade de diesel e QAV. Em linguagem de mercado, o parque de refino operando a 99% funciona como um teto estrutural de curto prazo: qualquer demanda extra tende a ser atendida por volume externo, o que pressiona a balança comercial em dólares mesmo em trimestres de produção recorde.

A companhia informou ainda que cargas equivalentes a 140 mil barris por dia estavam em andamento no encerramento do trimestre, com realização prevista para o quarto trimestre de 2026 (4T26). Esse volume tende a aparecer no caixa do período seguinte, não no balanço agora divulgado.

Pós-sal recua 4,2% e emissões sobem para 37,5 milhões de toneladas

Nem todos os indicadores apontam na mesma direção. A produção no pós-sal caiu 4,2% frente ao 2T26, pressionada por manutenções na Bacia de Campos e pelo declínio natural de campos maduros — fenômeno esperado em ativos com décadas de operação e que costuma exigir investimento contínuo em recuperação para desacelerar a queda.

Na frente ambiental, as atividades de óleo e gás emitiram 37,5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente entre janeiro e setembro de 2026, contra 35 milhões de toneladas no mesmo intervalo do ano anterior. A justificativa da empresa é o maior volume produzido de petróleo e gás e o crescimento do processamento nas refinarias. Em sentido oposto, a intensidade de emissões do segmento de exploração e produção melhorou: caiu de 14,7 para 14,1 quilos de CO₂ equivalente por barril de óleo equivalente produzido. Ou seja, cada barril saiu mais limpo, ainda que o total emitido tenha crescido com o aumento da escala.

O que observar até o fechamento de 2026

Três variáveis concentram a atenção para o 4T26. A primeira é a realização das cargas de 140 mil barris diários que ficaram em trânsito, capazes de sustentar o volume exportado no fim do ano. A segunda é o espaço operacional do refino: com utilização em 99%, ganhos adicionais de venda interna dependem de eficiência e de mix, não de capacidade ociosa. A terceira é a trajetória do pós-sal, cuja queda trimestral sinaliza que a contribuição de campos maduros tende a diminuir à medida que o pré-sal avança.

Para quem tem exposição ao papel, a mensagem do relatório é de qualidade operacional elevada, mas de conversão comercial mais complexa: produção em máximas históricas convive com importações em forte alta e com um saldo exportador menor. A alavanca de resultado, daqui para frente, depende menos de bater novos recordes de volume e mais da combinação entre preço do barril, demanda interna por diesel e QAV e custo das compras externas.