O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou, na última sexta-feira (24), o início da retirada progressiva do embargo à importação de gado vivo mexicano, medida que vigorou por mais de um ano para conter a disseminação da mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo (New World Screwworm – NWS). O anúncio provocou reação imediata no mercado de capitais, com os BDRs (Brazilian Depositary Receipts, instrumentos que permitem negociar ações estrangeiras no mercado local) de frigoríficos registrando ganhos expressivos e sinalizando possível inflexão no ciclo de escassez de matéria-prima.

Dinâmica dos ativos e sensibilidade de margens

O JPMorgan identifica a decisão como um dos principais catalisadores aguardados para o setor. Na sessão, os papéis da Marfrig avançaram 5,19%, cotados a R$ 15,61, enquanto a JBS saltou aproximadamente 8% na Bolsa de Nova York, fechando a US$ 13,26. Na visão da instituição, a movimentação indica que o ciclo do segmento está próximo do fundo, momento em que as empresas já haviam ajustado para baixo a capacidade de processamento diante da falta de gado.

A alavancagem das margens merece atenção analítica. O banco estima que cada incremento de 1 ponto percentual na margem EBITDA (indicador que mede o lucro operacional antes do impacto de juros, impostos, depreciação e amortização, dividido pela receita líquida) nas operações norte-americanas de carne bovina eleva o EBITDA consolidado da JBS em 4,6% e o da Marfrig em 5,4%. A relação direta entre disponibilidade de gado, taxa de utilização das plantas e rentabilidade consolida a tese de recuperação gradual.

AtivoVariação (%)CotaçãoSensibilidade EBITDA consolidado
MBRF3+5,19%R$ 15,61+5,4% por ponto de margem EBITDA
JBS (BDR)+8%US$ 13,26+4,6% por ponto de margem EBITDA

Fluxo histórico e cronograma de normalização

Antes da restrição imposta em novembro de 2024, o México operava como fornecedor estrutural da cadeia de gado de reposição norte-americana. Na década precedente ao fechamento, o país exportou, em média, 1,18 milhão de cabeças anuais para os EUA. Analisando os últimos 35 anos, a média histórica foi de 1,12 milhão de animais, volume que representava cerca de 3,4% do total de bezerros produzidos nos Estados Unidos. Uma breve reabertura em 2025 permitiu a entrada de apenas 230 mil cabeças antes da interrupção.

A retomada seguirá formato gradual, iniciando com um único posto de fronteira e com expansão prevista para setembro. A persistência de casos ativos da praga no estado do Texas leva o JPMorgan a estimar que o fluxo histórico, superior a 1 milhão de animais anuais, dificilmente será restabelecido antes de 2027. No curto prazo, o efeito sobre os preços futuros do gado deve ser predominantemente psicológico, antecipando-se à oferta física real.

Avaliação operacional e posicionamento das corretoras

Os estoques de gado nos EUA encontram-se próximos do menor patamar em 75 anos. Concomitantemente, os preços do boi gordo e da proteína bovina atingem máximas históricas, comprimindo as margens dos frigoríficos e forçando o desligamento de capacidade industrial, como registrado em uma unidade da Tyson em Nebraska e em linhas de produção da própria JBS. A retomada das importações mexicanas deve aliviar progressivamente essa escassez, elevando a utilização das plantas e expandindo a rentabilidade.

Em relatório assinado por Henrique Brustolin e J. Ricardo Rosalen, o Bradesco BBI classifica a notícia como positiva, porém considera prematura a adoção de viés otimista para os resultados do segmento. A instituição destaca que a JBS será a primeira beneficiada, dada sua exposição à região do Arizona, mas os ganhos mais expressivos para JBS e Marfrig dependerão da reabertura completa dos postos de Santa Teresa e Columbus. Mesmo em cenário de normalização integral, o BBI projeta que a utilização da capacidade de abate de gado confinado nos EUA alcançaria aproximadamente 84%, patamar ainda inferior ao conforto histórico. A oferta doméstica seguirá encolhendo, uma vez que os produtores americanos retêm animais para recompor o rebanho.

O Itaú BBA, por meio dos analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, concorda que a medida gera recuperação marginal das margens de processamento ao ampliar a oferta regional. Contudo, reitera que a indústria norte-americana segue operando em ambiente desafiador. Melhorias estruturais na rentabilidade dependem exclusivamente da concretização da virada do ciclo pecuário nos próximos anos.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física brasileiro, o anúncio reforça a correlação direta entre a disponibilidade de matéria-prima nos EUA e a rentabilidade das maiores processadoras globais listadas na B3 e no exterior. A sensibilidade de margem projetada pelas corretoras indica que qualquer alívio no custo do gado tem efeito multiplicador nos resultados consolidados. No cenário macroeconômico, a eventual recuperação das margens pode atuar como hedge contra a volatilidade do câmbio, especialmente considerando que parte significativa da receita dessas empresas é dolarizada. Entretanto, a recuperação será assimétrica e dependente da eficiência operacional e da disciplina de custos diante de uma Selic e de um CDI em patamares que pressionam o custo de capital para expansão e recomposição de rebanho. A paciência e o acompanhamento trimestral dos indicadores de capacidade instalada tornam-se fundamentais para a alocação de recursos nesse segmento.

Riscos Monitorados

  • Persistência da mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo no Texas, que pode interromper ou retardar a expansão dos postos fronteiriços.
  • Velocidade de normalização abaixo do esperado, com fluxo real de gado restrito até 2027.
  • Capacidade de utilização das plantas de confinamento limitada a 84%, patamar que ainda não justifica plena recuperação de margens.
  • Comportamento dos produtores norte-americanos de reter animais para recomposição do rebanho, continuando a pressionar a oferta doméstica.
  • Volatilidade nos preços futuros do gado e risco de nova compressão de margens caso a retomada seja apenas psicológica e não se materialize em oferta física.

Perspectiva e Próximos Passos

O mercado acompanhará a expansão dos postos de fronteira em setembro, a evolução dos focos ativos da NWS no Texas e os relatórios trimestrais que detalharão a utilização real das plantas industriais. A confirmação da inflexão do ciclo pecuário norte-americano e a estabilização do fluxo importado próximo a 1,1 milhão de cabeças anuais servirão como catalisadores para a validação da tese de recuperação setorial ao longo dos próximos anos.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.