Principais pontos

  • Para ela, o banco poderia ser privatizado porque negocia a menos de uma vez o seu patrimônio.
  • Segundo ela, mais de 20 estatais não geram receitas suficientes para arcar com suas contas e dependem de recursos do governo federal.
  • "Hoje, se eu te der os Correios por R$ 1, você leva R$ 9 bilhões de buraco. Então, ninguém quer", explicou.

Banco do Brasil (BBAS3) na mira da privatização

A coordenadora do programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, citou o Banco do Brasil (BBAS3) como uma das estatais passíveis de privatização. Para ela, o banco poderia ser privatizado porque negocia a menos de uma vez o seu patrimônio.

O comentário foi feito durante um seminário do grupo Esfera Brasil, que reuniu empresários em São Paulo nesta segunda-feira (14). Na ocasião, a coordenadora detalhou os eixos do programa econômico do candidato do PL e defendeu uma revisão ampla do quadro de empresas mantidas pela União.

Do ponto de vista de leitura de mercado, a relação abaixo de 1x o valor patrimonial é o dado numérico mais objetivo apresentado na fala — um múltiplo que, em tese, costuma atrair interesse de investidores em ativos negociados abaixo do valor contábil. A fonte não detalhou percentuais de desconto, tampouco informou preço-alvo, valor de venda estimado ou cronograma para a operação.

Caixa Econômica Federal fica fora da lista

Apesar da abertura para revisar o portfólio de estatais, Daniella Marques já apresentou um veredito para duas das principais instituições federais. Se o Banco do Brasil poderia ser privatizado, a Caixa Econômica Federal ficaria de fora da lista.

O motivo declarado é o papel da Caixa no plano de governo do senador. Segundo a coordenadora, a instituição seria mantida como "o braço na ponta, levando soluções de crédito, orientação financeira e capacitação para que o brasileiro possa crescer junto com o Brasil".

A distinção entre os dois bancos indica que a análise não é automática para todas as estatais, mas depende da função atribuída a cada uma dentro do desenho de política pública. O critério não é o tamanho, e sim o papel estratégico — o mesmo raciocínio que exclui a Caixa recoloca o Banco do Brasil na vitrine da desestatização.

Mais de 20 estatais sob revisão

A equipe econômica de Flávio Bolsonaro defende uma revisão do quadro de empresas mantidas pelo governo federal, o que pode levar à privatização ou até à liquidação de determinadas companhias.

Segundo ela, mais de 20 estatais não geram receitas suficientes para arcar com suas contas e dependem de recursos do governo federal. A lista incluiria companhias cuja manutenção seria reavaliada.

Um exemplo citado é a Ceitec, estatal de chips e semicondutores que foi extinta no governo de Jair Bolsonaro (PL) e reativada no governo Lula (PT). A coordenadora defendeu a liquidação da companhia.

O caso dos Correios serviu para ilustrar a dificuldade de venda de ativos deficitários. "Hoje, se eu te der os Correios por R$ 1, você leva R$ 9 bilhões de buraco. Então, ninguém quer", explicou. E seguiu: "É preciso fortalecer a gestão e recuperar para encaminhar a discussão para o presidente daquilo que faz sentido existir ou não".

Panorama das estatais citadas

EstatalSituação apontada na fala
Banco do Brasil (BBAS3)Passível de privatização; negocia a menos de 1x o patrimônio
Caixa Econômica FederalFora da lista; mantida como braço de crédito do plano
CeitecDefesa de liquidação
CorreiosExemplo de ativo deficitário: "R$ 9 bilhões de buraco"

Os compromissos: duas PECs e o ajuste fiscal

Daniella Marques detalhou dois compromissos assumidos por Flávio Bolsonaro caso seja eleito:

  1. a PEC do fim da reeleição;
  2. a apresentação de uma PEC que chame os Três Poderes para discutir e reduzir os gastos públicos.

O argumento é que o fim da reeleição faça os governantes focarem "nas próximas gerações e não nas próximas eleições". Já o "pacto para a autocontenção de gastos" mira contribuir para o ajuste fiscal, tratado pela coordenadora como "a medida mais essencial" para a economia brasileira.

Para ela, o país precisa de um "ajuste rápido" para conter o avanço da dívida pública e recuperar credibilidade junto ao mercado. "O problema está aí e se reflete no balanço das empresas e das famílias. Se não houver um ajuste rápido, acho que o cenário de inadimplência e de explosão do balanço — não só do governo federal, mas também das empresas e das famílias — vai ser muito drástico", afirmou.

A equipe ainda promete um "grande revogaço de normas infralegais e burocracias" nos 100 primeiros dias de um eventual governo, com o objetivo de desburocratizar a economia e incentivar investimentos.

Inspiração: Milei e o governo Bolsonaro

Segundo a coordenadora, o programa econômico tem como inspiração as reformas econômicas implementadas pelo governo de Javier Milei na Argentina, além de medidas do governo de Jair Bolsonaro (PL). A referência externa funciona como sinalização de agenda: prioridade declarada ao ajuste fiscal, à redução de gastos e à retirada do Estado de setores considerados não estratégicos — pano de fundo que reaparece na discussão sobre estatais.

Perfil: de presidente da Caixa a possível ministra

Daniella Marques tem trajetória ligada à área econômica do governo anterior. Foi presidente da Caixa Econômica Federal e secretária de Produtividade e Competitividade no governo de Jair Bolsonaro, além de assessora especial do ex-ministro da Economia Paulo Guedes.

Ela chegou a ser cotada para a vice de Flávio Bolsonaro, mas não obteve o cargo porque seu antigo partido, o Republicanos, decidiu manter a neutralidade na disputa presidencial. Com isso, migrou para o PL, assumiu a coordenação do programa econômico do senador e passou a figurar na lista de possíveis ministras de um eventual governo.

O que muda para investidores

  • A menção a BBAS3 como candidata à privatização adiciona um elemento de risco político ao papel, ainda que a fonte não apresente números de desconto, preço-alvo ou valor de venda.
  • A exclusão da Caixa do rol de privatizações indica tratamento diferenciado para instituições com função social atribuída no plano de governo.
  • A variável central segue sendo fiscal: as PECs do fim da reeleição e do pacto de contenção de gastos são apresentadas como pré-condição para a queda da curva futura de juros.
  • Para outras 20 estatais citadas como deficitárias, o caminho apontado é primeiro reestruturar contas e governança, e só depois decidir entre venda, manutenção ou liquidação.

O conjunto das declarações forma um retrato coerente de agenda econômica: ajuste fiscal como medida prioritária, reforma institucional via PEC e reavaliação patrimonial das estatais com base em critérios como múltiplo sobre patrimônio e dependência de recursos do Tesouro. Nenhum dos pontos, porém, tem valor, prazo ou percentual definido na fonte — o que mantém o tema no campo da sinalização política, e não de operação anunciada.