A Medida Provisória que veta as apostas online no Brasil entrou em vigor nesta sexta-feira (25) e retira da mesa um fluxo que, nas contas do Goldman Sachs, já equivalia a 4,4% do consumo mensal das famílias em 2025 — ante 0,3% em 2018. A norma, assinada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, vale de imediato, mas só se sustenta se o Congresso a aprovar em até 120 dias.
Para quem carrega exposição ao consumo doméstico e ao crédito na B3, a informação que muda o cenário não é a saída das apostas em si, e sim a ordem em que esse dinheiro reaparece. Quitação de dívida e item básico tendem a vir antes de qualquer reação das vendas discricionárias — e é essa sequência que separa um alívio rápido de um efeito que pode demorar a aparecer nos balanços.
Por que as apostas viraram alvo
A proibição chega menos de dois anos depois de o próprio Executivo ter montado o marco regulatório que autorizou o setor a operar. A justificativa é financeira: a avaliação no governo é que os gastos com jogos encolheram o orçamento doméstico e ajudaram a levar o endividamento a patamares recordes. Pesquisas recentes mostram que a proposta de banir as apostas de vez tem o respaldo de cerca de três quartos da população brasileira. Desde a regulamentação de 2023, a União arrecadou R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga — o valor de licença pago pelas casas autorizadas.
O tamanho do fluxo que sai do orçamento
Relatório do BTG Pactual estima que o setor movimentou cerca de R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos — o GGR, sigla para o faturamento das casas antes do repasse de prêmios — ao longo de 2025. O banco calcula que 25,2 milhões de brasileiros apostaram no período, boa parte deles em lares que já conviviam com endividamento elevado.
| Métrica | Valor |
|---|---|
| GGR em 2025 (BTG Pactual) | R$ 36,9 bilhões |
| GGR em 2025 (Goldman Sachs) | R$ 37 bilhões |
| Depósitos totais em apostas (Goldman) | R$ 221 bilhões |
| Brasileiros que apostaram em 2025 | 25,2 milhões |
| Peso no consumo mensal das famílias | 0,3% (2018) → 4,4% (2025) |
| Arrecadação da União com outorgas desde 2023 | R$ 2,5 bilhões |
O Goldman Sachs chega a um valor próximo para o GGR em 2025, R$ 37 bilhões, e coloca o Brasil na quinta posição entre os maiores mercados de apostas do planeta. Somados os prêmios pagos, os depósitos totais teriam alcançado aproximadamente R$ 221 bilhões no período. O avanço no orçamento doméstico mede melhor a disputa: categorias como habitação, vestuário e transporte cederam espaço às apostas desde 2018, segundo o banco.
Onde o dinheiro deve reaparecer primeiro
Raphael Monteiro, sócio da Finscale, vê o crédito como o primeiro canal por onde a medida se transmite. “No primeiro momento, bancos, financeiras e varejistas com operação de crédito podem perceber melhora na capacidade de pagamento antes de observar crescimento expressivo das vendas”
Na lista de segmentos que o sócio da Finscale enxerga como candidatos naturais a capturar esse troco estão farmácias, redes de alimentação, varejo de tíquete baixo e companhias de entretenimento — todos dependentes de uma condição comum: fiscalização que funcione.
Breno Grou, CEO da Sinter Futura, também coloca o consumo essencial à frente do discricionário. “Parte desse dinheiro pode voltar para o consumo, sobretudo de itens básicos, enquanto outra parcela pode ser usada para pagar dívidas. Por isso, o impacto tende a ser mais imediato no consumo essencial e mais gradual no varejo discricionário”
O BTG Pactual pondera que a conta pode não fechar como o previsto. Parte dos recursos hoje destinados às apostas pode escoar para operadores clandestinos, fora do alcance da economia formal, o que reduziria o efeito sobre o consumo registrado. Ainda assim, o banco avalia que o impacto seria relevante para alguns segmentos do varejo caso uma parcela desse dinheiro migre para gastos tradicionais ou para a quitação de dívidas, sobretudo entre os consumidores de menor renda.
O que o 2T26 já mostrava
Antes da MP, as apostas já apareciam no discurso das companhias brasileiras como concorrente pelo orçamento doméstico. O relatório do Goldman Sachs divulgado no fim de agosto, que reuniu as principais mensagens dos resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26), aponta o setor como captador de uma fatia cada vez maior da carteira do consumidor, ao lado de itens como medicamentos.
| Companhia | Sinal reportado no 2T26 |
|---|---|
| Magazine Luiza (MGLU3) | apostas esportivas citadas como dreno de renda disponível |
| Grupo Casas Bahia (BHIA3) | disputa por espaço no orçamento do consumidor |
| Assaí (ASAI3) | vendas mesmas lojas fracas e downtrading |
| Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3) | incerteza sobre o consumo |
| Natura (NATU3) | pressão nos gastos das famílias e migração para itens mais baratos |
O downtrading — a troca por versões mais baratas para segurar o orçamento — apareceu com força no varejo alimentar: o Assaí reportou crescimento fraco nas vendas mesmas lojas, aquelas de unidades abertas há mais de um ano. Em vestuário, Lojas Renner e C&A sinalizaram incerteza sobre o consumo, enquanto a Natura falou em pressão sobre os gastos das famílias e em migração para produtos mais acessíveis. Nesses casos, o Goldman não liga as apostas à deterioração reportada: trata o setor como um dos vetores de uma redistribuição mais ampla do orçamento doméstico.
Empresas de bens duráveis formam o grupo mais vulnerável nesse tabuleiro, por dependerem de crédito em um ambiente de juros altos e endividamento elevado.
O que observar daqui em diante
O primeiro teste é político. A MP vale agora, mas depende de aprovação do Congresso em 120 dias para não caducar.
O segundo é operacional, e talvez o mais decisivo para a economia real: a capacidade de fiscalizar. Se as apostas migrarem para casas ilegais, o alívio esperado no orçamento das famílias perde força e o efeito sobre o consumo formal encolhe.
O terceiro é a ordem de chegada do dinheiro. Crédito, alimentação e farmácia tendem a sentir antes; vestuário, bens duráveis e varejo discricionário, depois — se sentirem.
Para quem acompanha o setor, o que importa daqui em diante é menos o anúncio e mais dois indicadores: a capacidade de pagamento das famílias e a eficácia da fiscalização ao longo dos próximos meses.
