Principais pontos

  • O Ibovespa (principal índice de ações da B3, a bolsa brasileira) avançou cerca de 4,7% após o primeiro turno de 2014, 4,6% após o de 2018 e 5,5% após a votação de 2022.
  • A curva de juros segue como o melhor indicador em tempo real da credibilidade fiscal percebida nos diferentes desfechos eleitorais.
  • O Brasil segue negociando a aproximadamente 8,8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, patamar que o BBI classifica entre os mais baratos do mundo.

Os estrategistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler, do Bradesco BBI, concluíram após revisar cinco eleições presidenciais entre 2006 e 2022 que o primeiro turno provoca as reações mais intensas nos ativos brasileiros, com o Ibovespa (principal índice de ações da B3, a bolsa brasileira) chegando a subir 5,5% em um único pregão após a votação de 2022.

Segundo a fonte, a variável decisiva para a precificação não seria o nome do vencedor no segundo turno, mas a distância entre o resultado das urnas e o que indicavam as pesquisas na véspera. A leitura é que o investidor pessoa física precisa deslocar a atenção do palanque presidencial para a apuração inicial, pois é nela que surgem as informações inéditas sobre correlação de forças no Congresso Nacional, restrição fiscal e reposicionamento de carteiras.

Para o Bradesco BBI, a apuração do primeiro turno concentra o maior potencial de mexer com preços, mais do que a definição final do presidente eleito.

O recado para quem investe: primeiro turno precifica, segundo turno acomoda

O estudo sustenta que os três maiores ganhos diários do Ibovespa ligados a eleições aconteceram logo após primeiros turnos. O Ibovespa (principal índice de ações da B3, a bolsa brasileira) avançou cerca de 4,7% após o primeiro turno de 2014, 4,6% após o de 2018 e 5,5% após a votação de 2022.

A sessão seguinte ao primeiro turno de 2022 foi, segundo o levantamento, a melhor da Bolsa desde abril de 2020. O banco informou que a interpretação dominante envolveu três elementos combinados: uma composição do Congresso vista como mais favorável e capaz de conter alterações mais abruptas na política econômica, uma disputa presidencial mais apertada que o previsto que manteve múltiplos desfechos em aberto para o segundo turno, e um posicionamento defensivo prévio dos investidores que ampliou a força da recuperação quando o risco imediato se dissipou.

Por outro lado, os movimentos registrados após a confirmação do vencedor tenderiam a perder fôlego rapidamente. Após o segundo turno de 2014, o Ibovespa chegou a recuar cerca de 6% durante o pregão, encerrou o dia com queda menor e recuperou parte do terreno nas sessões seguintes. Em 2018, o índice tocou máximas intradiárias, expressão que designa as cotações mais altas atingidas ao longo do mesmo dia de negociação, logo após o resultado final antes de devolver ganhos em um movimento clássico de realização de lucros. Em 2022, a reação ao segundo turno foi bem mais moderada que a observada após o primeiro turno.

A leitura é que existe um padrão de exagero inicial seguido por acomodação, geralmente dentro de cinco pregões. Para quem acompanha risco de carteira, a consequência prática está no custo de se proteger tarde demais ou de perseguir a alta do dia seguinte à votação, quando boa parte do ajuste de preços já ocorreu e a volatilidade tende a diminuir.

Pesquisas erram sempre: o histórico de surpresas de 2006 a 2022

Um dos pilares do relatório é que houve divergências relevantes entre pesquisas e urnas em todos os pleitos presidenciais desde 2006. O banco argumenta que os levantamentos não deveriam ser tratados como previsões definitivas, sobretudo nas semanas que antecedem a votação.

Em 2006, as sondagens indicavam a possibilidade de vitória já no primeiro turno, mas a disputa seguiu para uma segunda rodada de votação. Em 2010, uma candidatura considerada de terceira via, termo usado para concorrentes fora da polarização principal, teve desempenho muito superior ao projetado e contribuiu para forçar nova votação. Em 2014, mudanças importantes nas semanas finais alteraram de forma significativa a configuração da disputa.

Em 2018, o candidato vencedor ficou próximo de liquidar a eleição ainda no primeiro turno. Em 2022, diversos levantamentos apontavam a possibilidade de definição imediata, hipótese que não se confirmou nas urnas. A recorrência desses desvios, na visão dos estrategistas, explica por que o mercado reage com tanta intensidade à apuração inicial: ela revela dados concretos onde antes havia apenas estimativas.

Primeiro turnoAlta do Ibovespa no pregão seguinteReferência histórica citada pelo BBI
20144,7%Entre as maiores altas eleitorais do índice
20184,6%Alta expressiva após definição do Congresso
20225,5%Melhor sessão da Bolsa desde abril de 2020

Congresso decide mais que Planalto: o filtro que limita mudanças econômicas

Na avaliação do BBI, a composição do Congresso continua subprecificada pelos investidores, embora tenha efeito direto sobre a capacidade de execução de políticas públicas independentemente de quem ocupe a Presidência da República. Segundo a fonte, o Legislativo funciona como um filtro que pode autorizar, moderar ou travar propostas do Executivo, especialmente em temas fiscais, privatizações e marcos regulatórios.

Foi essa lógica que ajudou a explicar 2022. O mercado leu um Congresso mais favorável como um anteparo contra guinadas mais drásticas na condução econômica. A disputa presidencial mais apertada que o esperado, por sua vez, preservou diferentes possibilidades para o segundo turno, o que alimentou o repique comprador após um período de posturas cautelosas.

A leitura é que o investidor intermediário a avançado ganha ao monitorar número de bancadas, perfil dos eleitos e coalizões prováveis já na noite do primeiro turno, em vez de concentrar toda a análise no percentual de votos dos dois finalistas à Presidência. São essas variáveis legislativas que moldam governabilidade, ritmo de reformas e espaço para expansão de gastos nos dois anos seguintes ao pleito.

Juros e dólar antecipam a Bolsa: o termômetro fiscal em tempo real

Entre as classes de ativos, o banco considera juros e câmbio os indicadores mais sensíveis à percepção sobre os cenários eleitorais. A curva de juros segue como o melhor indicador em tempo real da credibilidade fiscal percebida nos diferentes desfechos eleitorais. As ações, de acordo com o relatório, tenderiam a confirmar movimentos que aparecem antes nos mercados de câmbio e de renda fixa.

O relatório destaca que o real se valorizou mais de 4% logo após o primeiro turno de 2022, enquanto as taxas dos contratos de DI (Depósito Interfinanceiro, referência para juros futuros negociados no mercado brasileiro) recuaram de forma expressiva. O movimento refletiu a leitura de que haveria travas maiores para eventuais expansões fiscais com um Congresso reconfigurado.

Em 2018, o dólar recuou mais de 10% entre setembro e o segundo turno, enquanto a curva de juros fechou cerca de 100 pontos-base, unidade que equivale a 1 ponto percentual, sendo que 100 pontos-base correspondem a 1%, nos vencimentos intermediários. Já em 2014, as pesquisas provocaram fortes oscilações tanto na moeda quanto nos juros, com o mercado reagindo a cada alteração relevante nas chances dos candidatos. Para quem acompanha custo de capital, Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) e CDI (Certificado de Depósito Interbancário, referencial de rentabilidade atrelado aos juros) tendem a sentir o reflexo eleitoral antes que o movimento se espalhe integralmente para a Bolsa.

Estatais disparam e exportadoras protegem: o mapa setorial da eleição

Do ponto de vista setorial, o banco afirma que a melhor forma de expressar apostas eleitorais na Bolsa tem sido por meio das estatais e de empresas influenciadas pelo governo. O grupo inclui Petrobras (PETR4), bancos controlados pela União e companhias de infraestrutura ou utilities (concessionárias de serviços públicos, como energia elétrica e saneamento, muitas vezes com participação estatal ou regulação tarifária) com participação do Estado.

O Brasil, segundo o BBI, possui participação de estatais no índice superior à observada na maior parte dos mercados globais, o que amplia a relevância desse conjunto para investidores. Em 2018, por exemplo, uma cesta de ações de estatais chegou a acumular valorização de 30% a 50% entre setembro e outubro, impulsionada por expectativas relacionadas a privatizações e venda de ativos.

Na outra ponta, o BBI destaca que as exportadoras historicamente funcionam como proteção natural em momentos de maior turbulência política. Companhias ligadas a minério de ferro, petróleo, celulose e proteínas tenderiam a amortecer eventuais quedas do Ibovespa em cenários de risco doméstico, uma vez que possuem receitas dolarizadas, ou seja, denominadas em dólar, e se beneficiam da desvalorização do real. Esse comportamento ajuda a explicar por que, em episódios de forte estresse eleitoral, as perdas do índice costumam ser menores que as observadas em empresas mais expostas a decisões governamentais.


Brasil barato com juros longos em xeque: a aposta do BBI para a América Latina

Apesar da aproximação das eleições e da expectativa de volatilidade mais elevada nas próximas semanas, o Bradesco BBI mantém visão construtiva para os ativos brasileiros. O banco afirma que o Brasil continua sendo sua principal recomendação na América Latina e argumenta que o mercado brasileiro segue entre os mais baratos do mundo.

O Brasil segue negociando a aproximadamente 8,8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, patamar que o BBI classifica entre os mais baratos do mundo. O múltiplo preço sobre lucro projetado, indicador de valuation (análise do preço de um ativo em relação aos fundamentos, como lucros esperados) que divide a cotação pelo lucro estimado por ação, em torno de 8,8 vezes sinaliza desconto relativo frente a pares globais, sem que isso elimine o risco de oscilações bruscas em outubro.

Além disso, os estrategistas veem assimetria favorável no mercado de juros, projetando taxa de 11% no fim de 2027, ante cerca de 13,5% implícitos atualmente nos preços de mercado. A diferença de 2,5 pontos percentuais entre a projeção do banco e o que está embutido na curva indica espaço para reprecificação caso a percepção de risco fiscal se atenue após a definição do Congresso e da Presidência.

Nesse quadro, a carteira-modelo da instituição, uma seleção teórica de ações sugerida para referência de alocação, permanece concentrada em três temas principais:

  • ações sensíveis à queda dos juros, que tendem a se beneficiar de custo de capital menor;
  • empresas ligadas ao mercado de capitais, cuja receita acompanha volume de emissões, corretagem e gestão;
  • estatais, segmento visto como mais responsivo a mudanças de expectativa sobre privatização, dividendos e governança.

A leitura é que esses três grupos concentrariam maior sensibilidade a uma eventual reprecificação positiva dos ativos brasileiros ao longo do ciclo eleitoral, embora carreguem também maior exposição a reversões caso o resultado das urnas frustre as premissas embutidas nos preços.