O Banco do Brasil (BBAS3) delineou nesta quinta-feira (23) um cenário de transição prolongada durante seu evento institucional, reconhecendo que o exercício de 2025 ficará marcado como o “pior ano da história” da instituição em razão da inadimplência recorde na carteira rural. A alta direção explicou que as reformulações nos mecanismos de concessão implantadas ao longo do ano só se materializarão integralmente no ciclo 2026/27, enquanto o volume de provisões saltou para R$ 8 bilhões no segmento, evidenciando o ajuste patrimonial em curso.
Recalibragem de Crédito e a Composição da Carteira
A CEO Tarciana Medeiros adotou postura conservadora ao projetar 2026 como um período de reestruturação e recuperação gradual, com início de ano ainda marcado por desafios operacionais. A instituição está implementando novos modelos de concessão, com critérios de análise mais rigorosos e ampliação das exigências de garantias reais. O Bradesco BBI destaca que o fundo do ciclo creditício já foi atingido, mas a retomada dos saldos saudáveis não será imediata. A estrutura de vencimentos comprova essa inércia: em abril de 2026, 80% dos títulos ainda refletem o modelo de subscrição anterior, enquanto apenas 20% foram originados sob os novos parâmetros de underwriting (processo de análise e aprovação de risco de crédito).
Projeções de Resultado e a Curva de Retomada
As expectativas do mercado sofreram ajustes significativos após as declarações. O JPMorgan manteve a recomendação “neutra” e revisou para baixo em 14% a estimativa de lucro por ação (LPA, indicador que divide o lucro líquido pelo número de ações em circulação) para 2026, estabelecendo-a em R$ 20,6 bilhões. O número fica 11% abaixo do consenso de mercado rastreado pela Bloomberg e sinaliza crescimento zero na comparação anual. A instituição frisa que o primeiro semestre de 2026 trará pressões, apontando para uma trajetória de recuperação em “W” — caracterizada por idas e vindas — em substituição à curva em “V” inicialmente esperada.
| Indicador | Valor Estimado | Variação / Contexto |
|---|---|---|
| Lucro por Ação (2026) | R$ 20,6 bi | Queda de 14% vs. projeção prévia |
| Comparação ao Consenso | -11% | Abaixo da média Bloomberg |
| Formato da Recuperação | Trajeto em “W” | Substitui expectativa de curva “V” |
| Originação (Abril/2026) | 20% novo / 80% legado | Reflexo da transição de modelos |
Provisionamento e Dinâmica de Adimplência
O esforço de proteção ao balanço elevou drasticamente as reservas para perdas esperadas. O montante alocado especificamente para o agronegócio ampliou-se de R$ 800 milhões, patamar recorrente em condições normais, para R$ 8 bilhões, com impactos diretos no consolidado da instituição. Paralelamente, a taxa de pontualidade nos vencimentos recuou de 99% em 2023 para 92% no exercício atual. A administração antecipa uma recuperação para 95% em 2026, índice que, embora superior ao atual, permanece inferior à média histórica da casa.
O que isso significa para o investidor
A comunicação da gestão reforça a necessidade de paciencia na avaliação de papéis bancários expostos ao ciclo rural. Em um cenário de taxas ainda restritivas, a compressão de margens no campo tende a prolongar o ciclo de crédito. O investidor deve monitorar a trajetória da Selic e do IPCA, pois a normalização depende diretamente da queda do custo de capital e da estabilização de preços. A recuperação em “W” sugere volatilidade nos primeiros trimestres de 2026, com os efeitos das novas originações ganhando tração apenas no segundo semestre. Indicadores forward-looking ganham relevância na avaliação do ritmo de renovação da carteira.
Riscos
A trajetória de normalização enfrenta variáveis externas que podem alterar o cronograma de recuperação:
- Guerra no Irã: o conflito elevou fosfato e ureia em 80% desde o início das hostilidades. Como as aquisições concentram-se entre junho e julho, preços altos reduzem margens do produtor e elevam a demanda por refinanciamento.
- El Niño 2027: associado a secas, mas historicamente o NPL (carteira inadimplente ou Non-Performing Loans) e a produtividade nacional não são significativamente alterados na média, devido à compensação regional.
- Velocidade de transição: dependência de safras legadas em vencimentos curtos mantém exposição a processos antigos, limitando impacto imediato dos novos critérios.
Perspectiva e Próximos Passos
O mercado voltará o olhar para a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026, que servirão como termômetro inicial da eficácia das novas políticas de crédito. A janela de compras de insumos entre junho e julho funcionará como catalisador decisivo para a formação das próximas safras e a consequente redução da necessidade de provisão. A transição completa para os parâmetros vigentes deverá consolidar-se apenas no ciclo 2026/27, quando a parcela de 80% dos títulos legados for sendo substituída por originações com margens de segurança atualizadas.
