Após registrar recuo de 14,4% em julho, as ações da Usiminas (USIM5) enfrentam novo movimento de pressão no mercado à vista após o Itaú BBA ajustar sua tese para o setor siderúrgico. A instituição financeira reclassificou o rating da companhia para market perform (desempenho em linha com a média do mercado, equivalente a neutro), fixando preço-alvo de R$ 8 para o final de 2027. A mudança de postura foi acompanhada pelo ajuste na Gerdau (GGBR4), também rebaixada para neutra, ainda que com elevação do preço-alvo para R$ 29 até o mesmo horizonte temporal. A reação dos agentes foi imediata na B3: por volta das 12h27, USIM5 recuava 3,63%, cotada a R$ 6,90, enquanto GGBR4 despencava 3,41%, negociada a R$ 24,39.

Usiminas: Arrefecimento do Aço Plano e Pressão na Mineração

O banco justifica a mudança de outperform (desempenho acima da média, equivalente a compra) com a combinação de menor dinamismo no mercado de aço e perspectivas de resultados mais frágeis. O enfraquecimento do aço plano no mercado interno e a dinâmica de preços aquém das projeções iniciais limitaram o potencial de valorização da companhia. A divisão de mineração enfrenta ventos contrários adicionais, impulsionados pela correção no preço do minério de ferro e pela alta nos custos operacionais de diesel e frete.

Embora os preços da bobina laminada a quente (HRC) tenham acumulado alta de 10% em 2026 — beneficiados pelas medidas antidumping aplicadas no primeiro trimestre contra importações chinesas —, o horizonte atual indica estabilidade para o terceiro e quarto trimestres. Essa expectativa se deve à formação de estoques de aço plano importado equivalentes a dois ou três meses de consumo, anteriores à vigência das tarifas, somado à maior concorrência de produtos importados que utilizam aço intensivamente, como veículos e máquinas. A projeção original, que sinalizava alta mais expressiva no terceiro trimestre apoiada na demanda resiliente e menor volume de importações, foi revisada para baixo.

MétricaProjeção AnteriorNova ProjeçãoVariação
Ebitda 2026R$ 3,0 bilhõesR$ 2,7 bilhões-11%
Ebitda 2027R$ 3,6 bilhõesR$ 2,8 bilhões-22%
Yield FCF 2027N/A2%N/A
Múltiplo EV/EbitdaN/A3,2xN/A

Nota técnica: Ebitda corresponde ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização; FCF (fluxo de caixa livre) indica a geração de caixa disponível após investimentos obrigatórios; EV/Ebitda é o valor da empresa dividido pelo lucro operacional, métrica padrão para comparação de valuation entre pares setoriais.

Gerdau (GGBR4): Assimétrica Risco-Retorno Reduzida

A operação da Gerdau mantém fundamentos operacionais consistentes, mas o banco argumenta que a assimetria favorável que sustentava a recomendação anterior praticamente se esgotou. Desde a última revisão positiva, no fim de março, os papéis da siderúrgica valorizaram 33%, superando o Ibovespa em mais de 40 pontos percentuais (p.p.). O momento operacional melhorou, impulsionado pela força da unidade norte-americana, mas a precificação atual já incorpora grande parte dessas expectativas.

O BBA elevou as estimativas de Ebitda para 2026 e 2027 entre 4% e 5%, patamar que permanece 6% acima do consenso do mercado. Contudo, com a ação negociada a 4,0 vezes o EV/Ebitda projetado para 2027 e gerando rendimento de fluxo de caixa livre (FCF) de 9% para o mesmo período, a instituição avalia que a relação risco-retorno deixou de ser atrativa para manter um rating de superação. O quarto trimestre tende a apresentar desempenho sazonalmente mais fraco em ambas as divisões, impactado por menor número de dias úteis na siderurgia e intensificação do período chuvoso na mineração.

O que isso significa para o investidor

A revisão das casas de análise reflete um ciclo de normalização nos preços de commodities siderúrgicas e ajustes estratégicos após períodos de alta volatilidade. Para o investidor pessoa física, o cenário exige atenção redobrada aos indicadores de eficiência operacional e à capacidade das companhias em repassar aumentos de custos logísticos e de insumos aos preços finais. O ambiente macroeconômico brasileiro, com taxa Selic em patamares que ainda exigem prêmio de risco elevado, reforça a necessidade de margens de segurança robustas. A estabilidade projetada para o terceiro e quarto trimestres indica que o mercado deve priorizar a geração de caixa em detrimento de expansões agressivas, alinhando-se a um comportamento mais conservador típico de fases de consolidação de preços. A comparação entre múltiplos revela que, enquanto a Gerdau opera com prêmio de valuation justificado por eficiência nos EUA, a Usiminas navega em território de múltiplos descontados, porém pressionados por margens mais apertadas.

Fatores de Risco em Monitoramento

  • Correção persistente nos preços do minério de ferro, com média projetada recuando de US$ 105 por tonelada no segundo trimestre para cerca de US$ 97 no terceiro trimestre.
  • Pressão inflacionária em insumos críticos, especialmente diesel e custos de frete marítimo e terrestre, impactando diretamente a margem operacional da mineração.
  • Estoques elevados de aço plano importado (equivalentes a dois ou três meses de consumo) competindo com a produção doméstica e limitando o poder de repasse de preços.
  • Sazonalidade do quarto trimestre, marcada por menor número de dias úteis na siderurgia e intensificação do período chuvoso na mineração, reduzindo volumes e eficiência.

Perspectiva e Próximos Passos

Os próximos relatórios trimestrais serão determinantes para validar as projeções revisadas e confirmar se a estabilidade de preços e volumes se manterá conforme o cenário base dos analistas. Investidores devem acompanhar os informes de produção e vendas, a evolução dos estoques em canais de distribuição e os indicadores de demanda da indústria automotiva e de bens de capital. A capacidade de manutenção da geração de caixa livre e o gerenciamento eficiente da alavancagem operacional definirão o ritmo de precificação das ações ao longo de 2027, em um ambiente que premia a disciplina financeira em detrimento de expectativas de crescimento linear.